sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A ESFIHA CARIOCA

CrôniCaRioca


 

A ESFIHA DO LARGO DO MACHADO
Foto: Camila Redondo

 
Que o Rio de Janeiro é acolhedor, ninguém duvida. A característica brasileira de receber estrangeiros desde os tempos coloniais – pelos mais variados motivos, às vezes nem tão nobres, – prosseguiu ao longo dos séculos com os imigrantes vindos dos quatro cantos do planeta, que povoaram o país com a mistura que todos conhecemos. A cordialidade com que o Brasil recebe os turistas do século XXI, entretanto, talvez seja ampliada no Rio, ou não seria ela a cidade mais simpática do mundo...
As heranças diversas, misturadas sabe-se lá com que receitas, criaram iguarias, das quais às primeiras que vêm à cabeça são as portuguesas e as de origem africana, é claro. O que seria de nós sem um belo cozido, colorido, com tudo a que temos direito – não pode faltar o milho – e os doces de ovos da terrinha? Ou os quitutes ensinados pelos escravos, como o vatapá, o pirão, a carne-seca com abóbora, e tudo o que leva leite de coco? Uma paixão!



COZIDO
Blog M de Mulher

Mas, há uma delícia de outra origem escondida em uma galeria comercial dos anos 1960 e muitos, no Largo do Machado, bairro do Catete: a Galeria Condor. Há quase 40 anos uma verdadeira romaria procura as esfihas e caftas com arroz de lentilha da lojinha, iguarias trazidas por sírios e libaneses para as terras cariocas. Bem, a comida é árabe, mas a loja é administrada por portugueses e os cozinheiros são legítimos brasileiros, nordestinos!
Seu Arlindo está sempre lá. Se a gente pede um suco sem gelo e sem açúcar ouve “Manga 200!”. Custei a entender que era 100 + 100 = sem, sem: gelo e açúcar, óbvio!
 

CINEMA CONDOR
Blog História do Cinema Brasileiro
Ao longo de várias décadas a galeria mudou muito. O cinema que lhe deu o nome acabou. Virou uma igreja... que também acabou. Muitas atividades comerciais foram substituídas, o que é normal diante das regras do mercado e das transformações urbanas da cidade.
 

CINEMA POLITHEAMA
Também ficava  no Largo do Machado
Blog Topclassic

Nessas mudanças houve um caso muito engraçado, que hoje seria uma atitude legítima em prol do meio ambiente e da reciclagem: o aproveitamento do letreiro de um estabelecimento comercial que ficava na sobreloja. 
Lá funcionava uma sapataria. O letreiro enorme foi criado à imagem e semelhança do nome da loja: sobre o fundo branco pregaram pezinhos estilizados verde-escuro que se sucediam formando um caminho sinuoso. À noite as várias ‘pegadas’ se acendiam, uma atrás da outra. O efeito do pisca-pisca era de um caminhar iluminado, feérico e rápido.
 
O nome da sapataria era 'Passo a Passo'. 
 
A sapataria acabou e na loja instalaram uma pequena igreja. O dono foi econômico: tirou o nome da sapataria e escreveu “Siga os Passos de Jesus”. Os pezinhos continuaram a iluminar os que procuravam o caminho da salvação.
 

Mais adiante a igreja também acabou. No seu lugar entrou uma loja de meias. Os pezinhos, portanto, foram aproveitados mais uma vez, afinal, no depósito de meias havia meias de todos os tipos para todos os pés!
 

 

Mas, a loja de meias também se foi, e chegou um cabeleireiro. Tive muita pena porque não aproveitaram o letreiro de novo. Bem que poderiam. “Corte o cabelo e cuide dos pés”, por que não? No salão também tem pedicure...
 



A ESFIHA DO LARGO DO MACHADO
Imagem: Blog De Marcela para Ana

Com tantas mudanças, uma coisa ficou: a esfiha carioca-árabe-lusitana-nordestina que continua imbatível! Caso vá lá, se pedir a de queijo e o tabuleiro estiver chegando, cuidado para não queimar a língua nem sujar a roupa com o caldinho que sai do queijo de minas derretido.
Ah! Mande um abraço pro “seu” Arlindo, por favor!

Nota: A imagem dos 'pezinhos verdes' é do blog zazzle - adesivos personalizados. Se algum leitor tiver uma imagem do letreiro reciclado o blog gostaria de conhecer e, assim, poderia complementar a CrôniCaRioca.





quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A QUESTÃO DA FREGUESIA E O MP



No dia 28 último este Blog publicou artigo de autoria da arquiteta Gisela Santana - PEU TAQUARA - ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS! -  sobre os impactos sofridos por quatro bairros da Região Administrativa de Jacarepaguá, devido ao boom imobiliário que ocorreu após a edição de lei urbanística, sem que tenham sido observadas as diretrizes estabelecidas na própria lei quanto à infraestrutura urbana adequada como condicionante ao licenciamento das obras.

Na sequência, o arquiteto Canagé Vilhena traz esclarecimentos sobre a questão da representação ao Ministério Público do Rio de Janeiro, de iniciativa da Associação de Moradores de Moradores e Amigos da Freguesia – AMAF, e analisa a lógica e o conceito de controle da densidade populacional presentes na legislação urbana da cidade. Boa leitura!
Urbe CaRioca


Bairro da Freguesia, Jacarepaguá
Imagem: Blog História do Rio
 

A QUESTÃO DA FREGUESIA E O MP
por Canagé Vilhena*
em 29/8/2012

 Na apreciação do problema que ocorre na Freguesia, em Jacarepaguá, gostaria de destacar a questão da representação ao Ministério Público do Rio de Janeiro - MP-RJ, para impedir novas construções nesse bairro.

É necessário lembrar que o MP-RJ nada pode fazer para impedir o crescimento vertical do bairro, uma vez que a “SOCIEDADE CARIOCA” aprovou o absurdo Projeto de Estruturação Urbana - PEU Taquara (para Freguesia, Pechincha, Tanque e Taquara), assim como apoiou e aprovou o ABSURDO PEU DAS VARGENS.
 

Acredito, com muita certeza, que o problema não se resolverá enquanto não for colocado em prática o processo de Avaliação do Impacto Ambiental, previsto no Plano Diretor de 1992 e até hoje não regulamentado.

 
 
Para aprovação de projetos de grandes empreendimentos é feito somente um estudo de impacto sobre o sistema viário, o que acontece sempre e apenas com base na análise da Companhia de Engenharia de Tráfego - CET-RIO, órgão municipal que deve obediência ao prefeito, um mero despachante do mercado imobiliário.

A Lei Orgânica do Município, em seu art. 444, prevê a necessidade de Estudo de Impacto Ambiental quando o empreendimento incluir a instalação de equipamentos urbanos e de infraestrutura modificadores do meio ambiente, tais como uma Estação de Tratamento de Esgotos - ETE, por exemplo.


Bandeira do antigo
Estado da Guanabara
Enquanto nossa legislação, de origem na Lei de Desenvolvimento Urbano do Estado da Guanabara de 1967, ainda que com suas modificações, mantiver a mesma lógica adotada desde então, nada se acrescentará ao objetivo de garantir a boa qualidade do espaço urbano.

 
 
E nada poderá ser feito judicialmente para garantir este objetivo.

É preciso mudar, por exemplo, o conceito de controle da densidade feito apenas através de parâmetros urbanísticos, como gabarito, taxa de ocupação, número de vagas de automóveis no interior do lote, afastamentos, e área máxima permitida para construção.

Para mudar esta concepção, é necessário mudar o conceito do que seja a gestão urbana, comandada hoje por uma Câmara de Vereadores de maioria obediente ao Executivo.
 
Imagem: Blog Shark Attack
 O caos ainda se apresenta apenas na área baixa da Freguesia e demais bairros objetos do PEU Taquara, onde é possível construir prédios de apartamentos de grande altura, substituindo casas térreas.  No entanto, será mais grave quando, terminado este filão, o mercado subir até a cota +100,00m para construção de vilas, como previsto no artigo 37 do PEU. Ou seja, quando não mais houver espaço para prédios de apartamentos, o mercado vai ocupar as encostas trazendo todos os riscos previsíveis para que se repita o que aconteceu com a grande tromba d’água de 1996.

A solução, assim entendo, é a imediata abertura de debate para revisão do PEU da Taquara/Jacarepaguá, aprovado em 2004, junto com a discussão sobre a LEI DE USO DO SOLO, que já esta sendo elaborada pela Secretaria Municipal de Urbanismo – SMU, sem participação popular, para ser aprovada até fevereiro de 2013. 

Até lá como diriam os grandes comandantes do nosso samba: ‘VALE O QUE ESTÁ ESCRITO’.

 *Canagé Vilhena é arquiteto.
 
Bairro da Freguesia, Jacarepaguá
Imagem: PortalGeo
 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

PEU TAQUARA – ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS!

por Gisela Santana*
 em 24 de agosto de 2012




Projeto de Estruturação Urbana - Taquara - Jacarepaguá
Imagem: Site da Prefeitura

A Associação de Moradores de Moradores e Amigos da Freguesia – AMAF deu entrada em representação junto ao Ministério Público Estadual requerendo providências referentes aos impactos urbanísticos e ambientais decorrentes dos prejuízos causados à paisagem e ao conjunto de bens naturais e históricos dos bairros da Freguesia, Pechincha, Tanque e Taquara e demais áreas circunvizinhas.


Desde 2005, estes bairros vêm sendo alvo de inúmeras construções e lançamentos imobiliários, posteriores à aprovação da Lei Complementar 70/2004, que se refere ao Projeto de Estruturação Urbana – PEU Taquara.

          Desde então, os bairros têm recebido novos empreendimentos comerciais e habitacionais, sem atendimento ao que estabelece o art. 2º da própria lei que, entre outros objetivos, cita “o equilíbrio entre o desenvolvimento das atividades e a melhoria da qualidade de vida nos bairros” e “a relação adequada entre adensamento e as possibilidades de ocupação do sítio”.


           Em linhas gerais, os licenciamentos ocorrem predominantemente nos bairros da Freguesia e Taquara. Só a partir de 2008 é que o bairro do Pechincha assume representatividade no volume de licenciamentos, mantendo a terceira posição.


          Segundo dados da Secretaria de Urbanismo, o total de unidades licenciadas na soma dos quatro bairros, no ano de 2006, foi de 3.250 unidades, em 2007 de 3.218, em 2008 totalizaram 2.986 unidades, em 2009 de 3.588 unidades, em 2010 de 2.911 e em 2011 de 4.236 unidades, ou seja, 20.189 unidades licenciadas nos quatro bairros em período de cinco anos.


Em 2011 os valores relativos de licenciamentos de empreendimentos de comércio e serviços triplicaram em relação ao ano anterior, apresentando um total de 2.398 unidades nos quatro bairros, ultrapassando o número de unidades residenciais, que foi de 1.838. Os edifícios empresariais representam ainda maior preocupação aos moradores locais devido ao impacto viário que ocasionam.


A maior queixa da população é a de que a infraestrutura do bairro não acompanhou o vertiginoso boom imobiliário. As novas construções são geradoras de tráfego, agravado pelo sistema viário local remanescente do período agrícola da região. As estradas do Pau Ferro e Três Rios não suportam mais o imenso aporte de veículos. A Estrada Grajaú-Jacarepaguá recebeu 30% mais veículos no último ano. Os transportes públicos não atendem adequadamente à população e não há ciclovias que viabilizem o uso das bicicletas com segurança. Os deslocamentos tornaram-se suplícios diários em meio aos engarrafamentos. Percursos que antes eram realizados em minutos agora podem durar horas.


Os rios da região tornaram-se esgotos a céu aberto. E as árvores são cortadas às centenas para dar lugar aos prédios, aos estacionamentos de carros e às obras.
Os moradores da região, incomodados com as transformações dos bairros, sem as devidas contrapartidas aos impactos negativos em sua infraestrutura viária, sanitária e demais redes de abastecimento, decidiram unir forças. Realizaram, reuniões comunitárias, manifestações públicas, abaixo-assinados e reuniões com a Subprefeitura e Secretaria de Urbanismo, no intuito de salvaguardar e tentar recuperar a qualidade de vida e a ambiência do bairro. Além de mais de duas mil assinaturas, foram anexadas ao processo inúmeras matérias de jornais e folders de empreendimentos. Atualmente, o Processo encontra-se sob a tutela do promotor Carlos Frederico Saturnino.


O que surpreende a todos é que apesar do caos já instalado, as licenças continuam sendo emitidas e empreendimentos com mais de 400 unidades estão sendo postos a venda em vias cujos acessos já estão saturados, como é o caso da Rua Retiro dos Artistas.


         O curioso é que, conforme citado, tais licenciamentos infringem o previsto no próprio o PEU Taquara LC 70/2004, em seu artigo 2º - bem como no artigo 3º, que estabelecem que o adensamento deverá ser compatível com a infraestrutura existente, e também o estabelecido no artigo 445 da Lei Orgânica Municipal, que obriga a todo empreendimento, público ou privado ter relatório de impacto de vizinhança.

Canteiro de Obras - Travessa Cunha Galvão e Estrada do Capenha
No fundo, Igreja Nossa Senhora da Pena, bem tombado federal
Foto: Geraldo Rocha

        Além disto, os licenciamentos também ferem a Lei Federal 10.257/2001 (Estatuto da Cidade) em seu artigo 2º, no que se refere à política urbana e ao pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana, em especial nos incisos I, IV, VI e XII e Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Sustentável, LC 111/2011, em seus artigos 14, 68 e 69.

Rua Joaquim Pinheiro,
Freguesia, Jacarepaguá
Rede de esgotos saturada. Obs.: Hoje
há 5 empreendimentos imobiliários
sendo construídos simultaneamente,
alguns com quase 200 unidades.
Por ser área de baixada, alagável e suscetível aos aumentos do nível do mar decorrentes das mudanças climáticas, conforme relatório produzido pelo Instituto Pereira Passos, sua população está sendo expostas aos riscos de desastres naturais e, conforme estabelecido pelo artigo 2º, inciso VI, alínea “h” da lei Federal 10.257/2001, a ordenação e o controle urbano precisam evitar esta exposição da população.



Quanto tempo mais a população terá que esperar a promulgação de um decreto que congele temporariamente a área até que o novo PEU seja redigido pela Prefeitura e aprovado pela Câmara de Vereadores?

O Planejamento Urbano Integrado e Sustentável precisa envolver as mais diversas temáticas, de modo a que se tenha uma visão sistêmica da questão, e em tempo hábil, antes que seja tarde demais.



BLOG FATOS E ÂNGULOS
Imagem: livro Desvendando a Barra da Tijuca e Jacarepaguá
de Valdeir da Costa Lobo e Luciana Araújo Gomes da Silva

Gisela Santana*  - Arquiteta, Urbanista, Mestre em Desenvolvimento Urbano e Regional, Doutora em Psicologia Social, moradora da Freguesia e coordenadora do Movimento Nosso Bairro Nosso Mundo em defesa da qualidade de vida de Jacarepaguá. www.facebook.com/NossoBairroNossoMundo

Obs: As imagens sem legenda foram fornecidas pela autora.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A SEMANA – 20/8/2012 a 24/8/2012


Lista as postagens da semana que passou, com links.


Inverno no Rio de Janeiro, Céu de Outono - Rua Fadel Fadel, Leblon
Foto: JAGR


 
Segunda, 20/8/2102
A SEMANA – 13/8/2012 a 17/8/2012
 
Postagens imediatamente anteriores:

[ANTIGA FÁBRICA BHERING, 2 – CONFETE PARA A MÍDIA]

[DIVERSOS – 16/8/2012–St. Patrick’s, Quartel da PM, a Bola da Copa e Hotéis]

Confete de chocolate
Internet

 
Terça, 21/8/2012

ARTIGOS – ‘O Exemplo Londrino’ e ‘O Provisório Permanente’

Reproduz dois artigos de interesse da cidade, de autoria de Luiz Fernando Janot e de João Mauro Senise, publicados no jornal O Globo em 18/8/2012.

 

Quarta, 22/8/2012
VENDO O RIO, 2 – POEMINHA DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA

Área entre as Ruas Bartolomeu Mitre, Capitão César de Andrade e Av.
 Visconde de Albuquerque, ocupada desde os anos 1950 pelo 23º BPM - Leblon
Foto: Fernando Quevedo / O Globo

Em função da desistência, pela Petrobrás, de comprar o terreno do Batalhão da PM que fica na Rua Evaristo da Veiga, o Blog faz uma retrospectiva dos posts que analisaram a venda de logradouros públicos e de ativos imobiliários por parte dos governos estadual e municipal, e publica o segundo poema da série “Vendo o Rio”, criada em 2010.

 
Sexta, 24/8/2012
O JORNAL DE ROUPA NOVA - CrôniCaRioca

O Blog Urbe CaRioca lança um olhar sobre o novo projeto gráfico do jornal carioca O Globo. 

Internet


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O JORNAL DE ROUPA NOVA

CrôniCaRioca
 


 
A equipe do Blog é leitora assídua do periódico nascido no então Distrito Federal. Uns, em verdade, conheceram as primeiras letras do alfabeto – depois do “A”, é claro, com o Pai CaRioca apontando “O”, “G”, “L”... Outros passaram a ter pavor de avião quando, recém-alfabetizados, leram a manchete sobre um terrível acidente na Baía de Guanabara que levou muitas vidas.
 
Havia disputa sobre quem pegaria o jornal primeiro para ler as tirinhas alegres que chamávamos de ‘historinhas’: Pafúncio e Marocas, Brucutu, Fantasma...
 
 

 


Pafúncio e Marocas
Internet



Brucutu
Internet
Devido à longa convivência e, talvez, alguma intimidade, toma-se aqui a liberdade de comentar o novo projeto gráfico do quase centenário jornal carioca. Elogiado por celebridades, personalidades e leitores, nada impede que este Blog também lance seu olhar de fiel leitor.

 
 

Vamos, então, ao que há de melhor:

A primeira página tem estado muito bem no seu papel de chamariz. A montagem é agradável de se ver. O aumento geral das faixas livres brancas entre os ‘tijolos’ trouxe alguma leveza ao conjunto, foi o ponto alto. Toques de cor discretos em colunas e chamadas ficaram interessantes.

Já quanto às outras modificações, como diria um prestigiado colunista, há controvérsias...



Internet

Para a mudança da imagem - que se quis traduzir por melhoria, novidade, desafio, modernidade – aparentemente o instrumento principal para cativar os leitores atuais e atrair novos foi o uso da cor. Muita cor.




Não precisava. Afinal, diz-se que o que atrai o touro não é o vermelho, mas, o movimento do pano. Se o vermelho é a festa, atração para o público, o movimento é o conteúdo. No papel é o que chama, de fato, os leitores, ao texto.
 

Para tanta cor e variedade, há só uma explicação: o jornal quis ter a 'cara do Rio': o azul do mar e do céu, o branco das areias, o verde-musgo dos morros arborizados, o cinza das pedras – Pão de Açúcar, Dois Irmãos, Gávea, Papagaio – o verde das árvores e jardins, o amarelo do sol e o laranja do outono; a mistura colorida na roupa, pele e cabelo dos cariocas; os matizes dos biquínis e das antigas barracas de praia; os tons das casas dos subúrbios.

 
Rio de Janeiro Multicolorido
Trendmonitor


A esta equipe palpiteira parece que as doses de cores e tipos de letras foram além do necessário. A leveza conseguida com os espaços claros perde para páginas feericamente coloridas, os gritos dos negritos, e maiúsculas “turbinadas”. Bolds exagerados junto com um arco-íris de imagens competem com propagandas chamativas em uma confusão visual que por vezes camufla a notícia. Os Cadernos perderam a identidade: obrigam a uma procura cansativa no meio do caleidoscópio gráfico que pintou até os classificados! Difícil saber quem é quem!

Talvez por isso as páginas de opinião tenham ido se esconder depois do ‘Rio’. Discretas, estão muito bem e sóbrias como convém aos temas, não importa o lugar. Quem quiser irá encontrá-las.

Mas, como nós humanos temos capacidade de adaptação infinita, quem sabe em breve tudo fique mais fácil e esta CrôniCaRioca terá sido apenas precipitação de quem logo se acostumará...


Copacabana num dia de sol, 2011
Autor: Vera Marina - Da Vinci Galeria de Arte

De qualquer jeito fica aqui a opinião de que menos cor e menos tinta não fariam mal. Ao contrário, economizar pigmentos nesse caso poderia ajudar a resgatar a leveza que o jornal carioca certamente gastou fortunas tentando encontrar, e evitar que o papel do papel vire papel de revista.


Além disso, competir com as cores da cidade seria causa perdida. O Rio é imbatível!

Ah! As fotos dos colunistas em plano americano - à vontade, sorridentes, braços cruzados displicentemente - estão muito simpáticas.

E mais: pai e filho juntos ficaram ótimos no meio da página principal!




O Globo - 1925
Entre as manchetes, 'A Cidade Esburacada'
globo.com
 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

VENDO O RIO, 2 – POEMINHA DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA




Entrada do Quartel-General da PM, Rua Evaristo da Veiga
Foto: Gabriel de Paiva / O Globo
 
 
Na última semana foi noticiado que a Petrobrás desistiu de comprar o terreno onde fica o Batalhão da PM, na Rua Evaristo da Veiga, Centro do Rio de Janeiro em QG da PM: Petrobrás desiste, mas o estado não.
 


BIGORRILHO
Imagem: O Globo
 
O Urbe CaRioca havia analisado o assunto nos posts VENDO O RIO, QUARTEL DA PM E BIGORRILHOS (23/5/2012), QUARTEL DA PM, A ENORME PEQUENEZ (29/5/2012) e, na sequência, QUARTEL DA PM, UM BOM COMBATE (01/6/2012).
 
 
 
 
 
Quartel-General da PM, Pátio Interno, 1912
Imagem: Internet
 

As notícias deram ensejo a que fosse divulgado o primeiro “poeminha” da série criada em 2010 com base na observação de mudanças expressivas na forma e conteúdo das leis urbanísticas da cidade a partir de 2009, já abordadas aqui em outros textos (VENDO O RIO - POEMINHA DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA, 21/6/2012), em especial RIO + 20 LEIS URBANÍSTICAS.
 

Em entrevista, ontem, ao declarar que mudamos parâmetros urbanísticos para ajudar o Estado a fazer a Linha 4 do Metrô”, o prefeito corroborou o viés da política urbana recente praticada no Rio, apontada por este blog, que usa o solo urbano como panaceia, por vezes em detrimento da paisagem, como no caso da Penha.
 
Embora não se tenha notícia de quanto representou a “ajuda” para a construção da falsa Linha 4, vale lembrar que o Banco do Brasil emprestou R$3,6 bilhões para, entre outras obras de infraestrutura para o Estado do Rio, a construção da Linha 3.
 
 
DELEGACIA DO LEBLON - O Globo On Line
 A venda de ativos imobiliários e logradouros públicos basicamente na Zona Sul e Barra da Tijuca, e as declarações do Estado e Município tornam versos de VENDO O RIO ainda mais atuais. Abaixo, o segundo “poeminha”, feito em junho/2010 (V. nota* explicativa abaixo).

 

 
 
 
VENDO O RIO, OUTRA VEZ



Vendo o Rio, Especulo,

Preservar já é passado.

Gabarito e IAT,

Leva quem é abastado!

 

Não importa o Grande Centro,

Não importa a Zona Norte.

Vendo a Barra e a Zona Sul,

Deixo o resto à própria sorte!

 

Desprotejo, desamparo,

Faço outro dicionário.

Demolir é Revisão,

Eufemismo libertário.

 

No Leblon, em Ipanema,

O retorno é coisa boa.

Ou alguém vai revisar,

Santo Cristo e Gamboa?

 

De duzentos em duzentos,

Para hotel é lei à parte.

Raio em raio, autorizo,

Espigão por toda parte.

 

Olimpíada, um pretexto,

Nossa Copa é desculpa.

Se o texto é sem autor,

Quem publica não tem culpa!

 

Mas o Plano é Diretor

Diz o nome, é Diretriz.

Desvirtuo, modifico,

Aprovar assim eu quis!

 

Um aparte: é velado,

Apressado, há razão.

Com tal arte muita gente,

Já perdeu a eleição.

...


Ao contrário da tal lei,

Este texto tem autor.

É defesa da cidade,

Ao meu Rio, com amor.

 

Que Deus guarde o nosso chão,

Ou o que virá depois?

Divulgando o poema,

Não me omito. Somos dois?



*Nota:
 
Os versos referem-se à venda de gabaritos de altura aumentados em relação aos parâmetros existentes na região da Barra, Recreio, Vargens e Zona Portuária, e à lei chamada Pacote Olímpico que liberou benesses específicas para hotéis.
 
A menção ao Plano Diretor refere-se à falta de transparência, manobras, modificações sem autoria, e rapidez no processo de aprovação, cuja tramitação fora às regras estabelecidas, conforme vários questionamentos apontaram.
 
Quanto ao anúncio de “revisão” das Áreas de Proteção do Ambiente Cultural de Ipanema e Leblon para a retirada de imóveis preservados houve um recuo. Até hoje as APACs estão mantidas.