sexta-feira, 29 de maio de 2015

Artigo - DE MAR A MAR, MODERNIDADE E TRADIÇÃO: CIDADE E CAMPO NO RIO DE JANEIRO, de Cleia Schiavo Weyrauch


Mapa do zoneamento da cidade do Rio de Janeiro : Área Central e zonas Sul, Norte e Oeste na década de 1970


O blog Urbe CaRioca tem convidado os interessados a relatarem suas experiências e visões sobre os muitos bairros do Rio de Janeiro, histórias antigas e atuais, trazendo registros  para serem compartilhados com os leitores. As memórias e o conhecimento da professora e socióloga Cleia Schiavo – que já nos brindou com O CINEMA E AS ORQUÍDEAS, entre outros artigos, nos remetem ao “Sertão Carioca”, como era conhecida a Zona Oeste da nossa cidade até à primeira metade dos anos 1900.

Boa leitura.
Urbe CaRioca


DE MAR A MAR, MODERNIDADE E TRADIÇÃO: CIDADE E CAMPO NO RIO DE JANEIRO

Cleia Schiavo Weyrauch


Do início do Século XX até à década de 1960 o processo de modernização que ocorria no Rio de Janeiro, a capital do Brasil, estimulado pelo capitalismo em fase de consolidação, exigia uma racionalização do espaço, das instituições, e uma revolução no corpo social da cidade. Consideremos o espaço de civilização às margens da Baía de Guanabara e o litoral do “sertão”, espaço interiorano banhado pelas águas da Baía de Sepetiba, além do Atlântico que, com a expansão urbana, emoldurava os bairros da franja litorânea da cidade:

Em outubro de 1905 o Correio Paulistano publicava, na sessão telegramas, o seguinte: “Na noite de domingo será feita a experiência de novas lâmpadas de iluminação elétrica na Avenida Central”. Uma semana depois outro telegrama anunciava: “Esperado da Europa (...) o automóvel encomendado pelo Sr. Dr. Lauro Muller, Ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas e no qual o Sr. Presidente da República  inaugurará a Avenida, percorrendo-a em toda a sua extensão”. Outras notícias dão conta da modernidade que se introduzia no centro político do país. Temas como Calçamento, Arrasamento do Morro de São Bento, Obras no Porto do Rio, Caça aos Cães, Repressão à Mendicidade, e A Favor dos Vaqueiros preocupavam as autoridades. De fato, uma revolução ocorria no centro da cidade onde despontava a contradição entre tradição e modernidade. Bondes e trens cortavam a cidade em direção às retro áreas onde centros fabris se destacavam. No mundo da cultura a cidade fervilhava com as inúmeras companhias que traziam da Europa os acontecimentos de então. As trupes de Teatro e Ópera se sucediam!

Na outra ponta do Rio de Janeiro a baía de Sepetiba banhava o litoral do Sertão, território supostamente agreste e desconhecido da maioria da população. Foi lá nas terras do Sertão, a chamada Zona Rural desde 1918, que passei parte da minha infância e adolescência - experiência responsável por gerar um processo de investigação da região a partir de cenários guardados na memória.  

A Memória tem uma dimensão ótica: é um cenário vivo com som, cheiros e cores, tem natureza afetiva, por vezes anedótica. Nela repousamos nosso cansaço e dela saímos renovados com a alegria e vitalidade de uma infância vivida intensamente. Mas, cada rememoração traz um detalhe a mais, complementado, de forma dissimulada, por conhecimentos adquiridos sobre o tempo raiz do qual nos lembramos.  Talvez memória e ficção se confundam nesse interminável vai e vem de acréscimos. 
O cheiro de infância que até hoje me cobre vem dos laranjais, dos pés de quiabo e berinjelas, das batatas-doces, cenouras, nabos e outros frutos da terra plantados no sítio dos meus avós em Inhoaíba, estação de trem que ficava depois daquela de Campo Grande. O sítio se localizava na então a Zona Rural do Distrito Federal, criada na época em que governava o Brasil o Presidente Wenceslau Brás. Hoje esta região integra-se à Zona Oeste do Município/Cidade do Rio de Janeiro. Em frente à porteira do sítio passava uma Estrada que chamavam de Real e dizia-se que por ali transitaram no século XIX imperadores e nobres com suas comitivas e lacaio que os serviam no Palácio Real de Santa Cruz. Na minha infância, década de 1940 do século XX, por essa estrada passava um pequeno caminhão que recolhia os legumes, hortaliças, e frutas produzidos nos sítios e enviados para venda nas feiras-livres, onde trabalhavam meu pai, alguns tios e tias.

O sonho da terra própria fez com que meu avô, um imigrante italiano se transferisse da atividade fabril na Gávea, onde era Mestre de Tear, para a ‘mata virgem’, como ele assim chamava a terra que escolhera para morar.

Na memória de infância surgem cenas de uma vida rural onde aparecem um cavalo e uma carroça, instrumentos de trabalho e lazer que circulavam nas redondezas à procura dos vizinhos amigos que habitassem próximos a rios e cachoeiras onde a meninada adorava tomar banho, e, acreditem, em água bem limpinha! Rios desciam da Serra de Inhoaíba, como o Rio Papagaio que atravessava nossa propriedade esfriando as mangas que caiam das mangueiras nascidas em suas margens. São muitas as lembranças, entre elas a de comer sobre um pano aberto na grama um delicioso aipim com melado, ou então espinafre com ovo frito e torresmos. Em ocasiões festivas, porcos passavam do chiqueiro aos pratos.



Principais ferrovias do Distrito Federal, 1930
A Estrada de Ferro Central do Brasil ia do centro da cidade ao Sertão a transportar produtos agrícolas e passageiros. Em 1878 o trem chegou à Santa Cruz onde se localizaria o Matadouro a partir de 1880 do século XIX. Em Cascadura onde morávamos, pegávamos com nossos pais o trem elétrico até Bangu fazíamos baldeação para Inhoaíba na “Maria Fumaça”, trem a vapor que ia até o Matadouro passando por Santíssimo, Senador Camará, Augusto Vasconcelos, e Campo Grande até o destino. À beira de cada estação existiam currais e barracões para guarda de animais de pequeno porte e cítricos que abasteciam tanto a cidade do Rio de Janeiro como as demais áreas do estado, e até do exterior.


Quando o percurso de Bangu ao Matadouro foi eletrificado, meu avô ficava à janela para controlar o horário dos trens que passavam. Naquela terra bucólica, onde cada vez mais se distanciava o lampião que iluminava fragilmente as pessoas cujos rostos eram complementados pela memória do dia. A luz elétrica, que só chegaria ao final da década de 1940, abafaria a luz das estrelas que iam muito além dos lampiões.  Ai! E os vagalumes cintilantes a iluminar a casa em noites de lua!

Em alguns domingos no sítio, os adultos tomavam banho na Praia de Sepetiba, aonde íamos, de caminhão, brincar nas águas lodosas sem a terrível poluição que a marcaria no século XXI.  Por aquele mar, me contaram, passaram piratas e corsários que invadiram a cidade do Rio de Janeiro, capital da corte do Império brasileiro e finalmente da República do Brasil até 1960.

Limites das Zonas Urbana, Suburbana e Rural com base no Decreto 1.185 de 05/11/ 1918


A INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA

 A partir da memória conquistada, passei à investigação histórica, onde avaliei as situações lembradas através de documentos primários e secundários, Atlas existentes, censos agropecuários e outras fontes que enriqueceram o estudo. Extraí dos genealogistas excelentes dados que me fizeram recuperar a qualidade das relações locais nos primeiros 50 anos do século XX. Integrei à pesquisa teses já produzidas sobre o tema investigado da qual seleciono três aspectos, a saber: A Estrada Real e o Sertão, Economia e Cultura da Região e o terceiro chamado De Mar a Mar.



I) A ESTRADA REAL E O SERTÃO

A estrada Real surgiu de uma picada indígena posteriormente chamada de Caminho dos jesuítas que ia do centro da cidade do Rio de Janeiro até a redução jesuítica criada no século XVI, quando a sesmeira D. Marquesa Ferreira, viúva de Cristóvão Monteiro, doou aos jesuítas as terras que o marido ganhara em 1567 de Martim Afonso de Souza por serviços prestados durante a expulsão dos franceses. No início do século XIX, quando da transmigração da Família Real ao Brasil, essa Estrada ganhou o nome de Real, onde passava uma diligência que saía pela madrugada do Palácio Imperial de São Cristóvão e chegava entre 9h e 10h no Palácio de Veraneio de Santa Cruz.
Antes de 1918 a vida socioeconômica da região era controlada pelas ordens religiosas como o Curato de Santa Cruz e as Freguesias de Campo Grande e Guaratiba. O Sertão era um espaço de produção agropecuária, extrativista e até de seda.


Festa da Lavoura, Campo Grande, década de 1950

II) A ECONOMIA E A CULTURA

A região tinha na olericultura e na citricultura o seu forte. Os lucros com a carvoaria acabaram por devastar florestas face ao valor do carvão produzido. Na prática, sua pujança durou até meados da década de 1950, quando a crise da laranja trouxe um desgaste econômico. Em decorrência a terra foi se fragmentando, fazendo surgir os loteamentos urbanos e não mais sítios para o plantio. Restaram alguns como produtores de plantas ornamentais, coco e áreas de lazer. A cultura da laranja expandiu-se para a Baixada Fluminense, de onde eram também exportadas.

Do ponto de vista cultural, desenvolveram-se excelentes Escolas Rurais e também o Instituto Metodista Agrícola Ana Gonzaga. Até os clubes de futebol locais recebiam nomes como Flor do Sertão e Sabiá. Uma vez por ano comemorava-se em Campo Grande a Festa da Lavoura, onde desfilavam carros de bois com moças vestidas de camponesas. Na década de 1950 foi fundado em Campo Grande o Teatro Rural inspirado nas ideias de Paschoal Carlos Magno. Do ponto de vista político, essa região elegeu dois senadores: Otacílio Camará e Augusto Vasconcelos, e o Deputado Júlio Cesário de Mello.


III) DE MAR A MAR

O fim do ciclo da laranja abriu caminho para a urbanização definitiva da região com o apagamento gradativo dos traços rurais que a marcaram durante longos anos. A tímida urbanização das primeiras décadas do século XX deu lugar a partir de 1950 à especulação urbana em nome de interesses empresariais e do abandono da agricultura pelas instituições responsáveis. Um novo desenho da cidade se abriu com o Plano Doxiadis que apontou para a vocação industrial portuária da região da Bacia de Sepetiba. No governo Negrão de Lima foi criada a Zona Oeste, que incorporou a Zona Rural acrescida da área denominada de AP4 (Barra da Tijuca, Recreio, Jacarepaguá e adjacências). Em 1974 a Barra foi apontada como a nova centralidade da cidade: com a criação da Superintendência de Desenvolvimento da Barra da Tijuca - SUDEBAR surgiu uma nova frente urbana de classe média que continua a atrair novos moradores.

Com relação ao Polo Siderúrgico é bom lembrar que a COSIGUA foi fundada no governo Carlos Lacerda (1961), porém o desenvolvimento só aconteceu quando o Grupo Gerdau assumiu sua direção. Com a inauguração da Thyssen Krupp em 2010, a Cia. Siderúrgica do Atlântico, sem cumprir com os compromissos ambientais assumidos, provocou crimes ambientais de grande porte na área.


Internet
Naquela outrora Baía de Sepetiba, espaço retaguarda da cidade do Rio de Janeiro, onde Fortes foram construídos para a defesa da nossa cidade, hoje cai uma chuva ácida e não mais a chuva que fazia exalar o cheiro da terra que sentíamos da porta da cozinha de nosso sítio.

Marcada por um baixo Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, a região da AP5 é hoje sede de imensas favelas e carece da atenção dos gestores públicos.

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Cleia Schiavo Weyrauch é Professora Colaboradora do Programa de Pós-graduação de Políticas Públicas e Formação Humana. Também é autora dos livros PIONEIROS DE NOVA FILADÉLFIA: RELATO DE MULHERES. EDCUS; e DEUS ABENÇOE ESTA BAGUNÇA: imigrantes italianos na cidade do Rio de Janeiro.

Imagens cedidas pela autora.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O PRÉDIO DO FLAMENGO, OUTRA VEZ


Blog Falando de Flamengo


No dia 19/05 a coluna Gente Boa noticiou ‘Avenida Rui Barbosa, no Flamengo, pode ser transformada em área turística’. Seria um pedido dos moradores ao prefeito para “...viabilizar a construção de um hotel no edifício da EBX. Para que isso aconteça, Paes precisaria pedir à Câmara dos Vereadores uma alteração na legislação”.

O de hotel para o local uso já foi autorizado pelo Pacote Olímpico 1, como explicado no Blog Urbe CaRioca em diversos posts - por exemplo, NO FLAMENGO e DO FLAMENGO – MORADIA, HOTEL, ABANDONO e INVASÃO - AI QUE EDIFÍCIO COMPLICADO! - com a inclusão de um artigo específico para atender àquela demanda, acrescentado à proposta que deu origem à Lei Complementar nº 108/2010, por vereadora que, à época, presidia o clube rubro-negro.

Portanto, o zoneamento não é empecilho, salvo se o citado artigo for considerado inconstitucional, pois no site da Prefeitura consta que está sub judice.


Lei Complementar nº 108/2010
(...)
Art. 13 Será permitido o uso de serviço de hospedagem, obedecidos aos parâmetros urbanísticos definidos pela legislação em vigor para as zonas residenciais 2 e 3 e nos centros de bairro 1, 2 e 3 do bairro do Flamengo (VETADO).


A prevalecer o uso de hotel para o edifício da Avenida Rui Barbosa nº 170, no Flamengo e do Flamengo, arrendado à EBX, é possível que o projeto seja modificado caso tenha se beneficiado dos muitos metros quadrados, a mais, oferecidos pelo mesmo Pacote Olímpico para as edificações destinadas a hotéis, acarretando a diminuição da área total de construção.

Interessante para a cidade de fato seria a devolução aos cofres municipais de todos os impostos e taxas dispensados em nome das Olimpíadas, caso tal benefício também tenha sido usado.

Enquanto isso a vereadora Leila do Flamengo ressuscitou um projeto de lei complementar de 2006 (PLC nº 26), de autoria que muda o Zoneamento da Avenida Rio Barbosa para Zona Turística, que já está em tramitação na Câmara de Vereadores.

A ser aprovado, muito embora seja improvável toda a avenida poderia ter hotéis. No nº 170, entretanto, ficaria vedada a instalação de “boates, motéis, bares, casas de entretenimentos e qualquer outro tipo de atividade comercial em edificações de uso exclusivo para este fim, bem como em edificações residenciais multifamiliares”.

Evidentemente, o adendo cria um instrumento de difícil controle no caso de hotéis – e que pode afastar as empresas interessadas em ocupar o prédio abandonado.


Urbe CaRioca







segunda-feira, 25 de maio de 2015

TRANSCARIOCA, BRT, METRÔ E GABARITOS

ATENÇÃO!

Acari, Barros Filho, Bento Ribeiro, Bonsucesso, Brás de Pina, Campinho, Cascadura, Cavalcanti, Cidade Universitária, Coelho Neto, Colégio, Complexo do Alemão, Costa Barros, Engenheiro Leal, Galeão, Guadalupe, Higienópolis, Honório Gurgel, Irajá, Madureira, Maré, Marechal Hermes, Olaria, Osvaldo Cruz, Penha, Penha Circular, Praça Seca, Quintino Bocaiúva, Ramos, Rocha Miranda, Tanque, Turiaçú, Vaz Lobo, Vicente de Carvalho, Vila da Penha, Vila Kosmos e Vila Valqueire.


Bairros que terão índices construtivos modificados segundo projeto de lei complementar encaminhado pelo Poder Executivo à Câmara de Vereadores 


O jornal O Globo de ontem publicou reportagem interessante sobre o sistema Bus Rapid Transit, o BRT. Segundo os usuários, o tempo de viagem diminuiu, porém os veículos estão sempre lotados.
Destacamos o seguinte trecho:

ESPECIALISTA: DEMANDA ALTA DEMAIS
A Secretaria municipal de Transportes informa que o Transcarioca carrega cerca de 11 mil passageiros por hora em cada sentido durante o rush. Segundo Eduardo Ratton, doutor em planejamento de transportes e professor da Universidade Federal do Paraná, primeiro estado do país a implantar um BRT, a demanda se mostra muito alta para um sistema inaugurado no ano passado:
— O BRT é tolerado para demandas de até 15 mil passageiros por hora em cada sentido. Quando essa marca é atingida, isso indica que o sistema está saturado. No Paraná, estamos nessa média, mas demoramos quase três décadas para atingir esse patamar. O ideal é que o Rio continue investindo na construção de linhas de metrô e que o BRT seja uma alternativa. Se isso não ocorrer, o sistema vai ficar saturado rapidamente.

O dado é assustador. A fala do especialista indica que com apenas um ano de funcionamento a capacidade do BRT Transcarioca está próxima da saturação. Não é crível que os técnicos da Prefeitura ou de outras instituições que porventura tenham realizado estudos prévios à decisão de construir corredores expressos para ônibus articulados não tivessem conhecimento sobre a relação oferta x demanda.
O que a reportagem não menciona é que o trajeto da Transcarioca corresponde ao traçado da Linha 6 do Metrô do Rio, modal descartado para dar lugar a uma solução “rápida e mais barata”, como sempre o BRT é apresentado. Se a palavra “eficiência” é menos lembrada, o que dizer sobre “conforto”, “segurança”, e “mobilidade”?


Há mais um aspecto importante que não deve ser esquecido.
Está em tramitação na Câmara de Vereadores o Projeto de Lei Complementar nº 106/2015 que “INSTITUI A ÁREA DE ESPECIAL INTERESSE URBANÍSTICO TRANSCARIOCA, ESTABELECE DIRETRIZES E INCENTIVOS PARA A REESTRUTURAÇÃO URBANA DE SUA ÁREA DE ABRANGÊNCIA, DEFINE NORMAS DE APLICAÇÃO DE INSTRUMENTOS DE GESTÃO DO USO E OCUPAÇÃO DO SOLO E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS”.

O que a ementa classifica como ‘reestruturação urbana’ nada mais é do que a modificação de índices construtivos ao longo do trajeto daquele corredor de tráfego.

O PLC nº 106/2015 aparentemente substituiu o PLC nº 77/2014 - comentado neste blog em outubro/2014 no post ÁREA DE ESPECIAL INTERESSE URBANÍSTICO A.E.I.U. TRANSCARIOCA – GABARITOS, ETC. - , arquivado em 08/04/2015: a ementa é a mesma. Os mapas dos setores com os novos gabaritos de altura estão NESTE LINK.

Tal como no caso da proposta para o Plano de Estruturação Urbana da Ilha do Governador, analisar matéria de tamanha complexidade é tarefa para uma equipe de técnicos dispostos a comparar leis vigentes e modificações rua por rua, avenida por avenida! Por isso a SUGESTÃO AO IAB-RJ, TEMAS PARA DISCUSSÃO. 
É de admirar-se a facilidade com que nobres vereadores votam e aprovam tantas leis urbanísticas semelhantes, com viés arrecadatório e aumento expressivo de gabaritos de altura, áreas de construção, taxa de ocupação, etc. aspectos que interferem sobremaneira na paisagem urbana e na densidade dos bairros afetados.
E o BRT?
O BRT que deveria ser Metrô receberá ainda mais cariocas na medida em que surjam novas e maiores construções nos terrenos ao longo do seu trajeto, possivelmente já cobiçados pelo mercado imobiliário (v. SEMPRE O GABARITO, 2014).

Resta saber se a demanda será atendida. Com a palavra, os especialistas.

NOTAS:

Artigo no O Globo de hoje descreve o uso do sistema em várias cidades mundo afora. Segundo o professor Luis Antonio Lindau, adequado. Embora não saibamos qual é a demanda das cerca de 60 cidades mencionadas, acreditamos que o autor tenha razão, em especial ao considerarmos sua última frase: “(...) o transporte coletivo sobre pneus, com sua inerente flexibilidade e a alta competitividade proporcionada pelas faixas exclusivas, apresenta-se como um componente essencial do sistema de mobilidade”. Ou seja, a ser adotado como componente do sistema, por certo, não seria o modal protagonista.



Urbe CaRioca  

sexta-feira, 22 de maio de 2015

SOBRE A DRAGAGEM DAS LAGOAS DE JACAREPAGUÁ

 Secretaria de Estado do Ambiente anuncia TAC com MP estadual, mas procurador da República não reconhece

“— Entendemos que o TAC não tem validade porque o assunto é de competência da União, por se tratar de obra em zona costeira, o que afeta a balneabilidade das praias. E o que chama a atenção é que tanto o MPRJ como a SEA estavam cientes de que estávamos atuando. O MPF nunca esteve inerte — afirma Suiama.— É crime autorizar obras sem a licença devida. É inadmissível que se realize uma dragagem gigante, sob custo de R$ 600 milhões, sem a apresentação do estudo de impacto ambiental. Em tempos de Lava-Jato, não podemos autorizar qualquer obra dessa magnitude, ainda mais com empreiteiras envolvidas em escândalos recentes (as construtoras OAS, Queiroz Galvão e Andrade Gutierrez farão a dragagem).”

(...)

“— O MPRJ deveria zelar pelo ambiente, mas está compactuando com essa solução não estudada adequadamente, e que pode causar mais problemas futuros para o sistema lagunar. Não questionamos a dragagem, mas a forma que está sendo feita. Pelo discurso da audiência, parece que eles (a secretaria) vão começar o serviço e ficar monitorando, para saber o que acontece. Ou seja, não há nenhum planejamento prévio — explica Suiama, que lamenta a visão de parte da população de que o MPF estaria atrapalhando a limpeza das lagoas. — Desde 2000 propomos soluções. Nossa posição não é de que não pode, mas de que é preciso fazer direito.”


Trechos de notícia publicada no O Globo on line hoje.


Vitruvius


No último dia 3 publicamos o post LINDAS ÁGUAS POLUÍDAS NA URBE CARIOCA. Um dia depois O Globo publicava "Prefeitura quer fazer PPP para tratar esgoto em Jacarepaguá".


O assunto continua em pauta, agora devido ao impasse entre o Governo Estadual e o Ministério Público Federal. Embora a notícia não seja conclusiva, depreende-se que a Secretaria de Estado do Ambiente pretende realizar a dragagem das lagoas da Barra da Tijuca e de Jacarepaguá, e que o MPF embargará a obra por falta de licenciamento ambiental.


Depois das sugestões de (1) criar uma ilha artificial com o material retirado, e (2) colocar os sedimentos justamente no terreno do Campo de Golfe dito olímpico, ambas não aceitas, consta que “o destino do material seriam cavas a serem escavadas nos fundos das próprias lagoas”.


Enquanto não se vislumbra uma solução, o esgoto continua a correr ininterruptamente em direção às nossas lindas águas, dejetos que, infelizmente dispensam licenças, ou não existiriam...


Enquanto o esgoto jorra e aguardamos os desdobramentos, repetimos o óbvio: nossas lindas águas poluídas precisam respirar. Para ficarem limpas não basta limpá-las, conforme mais uma vez prometido pelo governo estadual em relação à Baía de Guanabara. É preciso que o despejo de lixo e de esgoto cesse.


O RIO DE JANEIRO À BEIRA D'ÁGUA, artigo de nossa autoria publicado no site The Nature of Citiesserá republicado aqui em português na próxima semana.



Urbe CaRioca


Canal das Taxas, Recreio dos Bandeirantes
Foto do biólogo Mário Moscatelli divulgada em 22/05/2015 nas redes sociais

 
Marina da Glória, Parque do Flamengo
Foto do biólogo Mário Moscatelli divulgada em 22/05/2015 nas redes sociais

 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

APAC – BOTAFOGO, UM GRAVE PRECEDENTE ESTÁ A CAMINHO




Está em tramitação na Câmara de Vereadores o Projeto de Lei nº 1827/2008de autoria do vereador Adilson Pires, que propõe retirar o imóvel situado na Rua Álvaro Ramos nº504 – Botafogo, da listagem de bens preservados pelo decreto que criou a Área de Proteção do Ambiente Cultural - APAC de Botafogo em 2002.

Segundo as normas vigentes o prédio existente, que tem três andares, pode ser totalmente modificado e remodelado por dentro, e mantidos a fachada e telhado com suas características originais, sob orientação do setor de patrimônio cultural do município.

Ao contrário do mencionado na justificativa apresentada pelo autor, o imóvel não é tombado, mas, classificado como preservado no conjunto da APAC daquele bairro. Tampouco se trata de uma ruína, como afirmado. Caso seja retirado da listagem a construção poderá ser demolida e substituída por um prédio residencial com o total de 7 andares (não afastado das divisas) ou 13 andares (afastado das divisas). Se o uso for não-residencial (sede de empresa) o gabarito fica restrito a 3 andares de qualquer natureza.

Retirar um imóvel do conjunto protegido é um grave precedente para o Rio de Janeiro, pois vários bairros contam com esse tipo de limitação administrativa que visa manter a memória urbana viva da cidade. Há dezenas de imóveis preservados nas Zonas Sul, Zona e Oeste. Até a “Zona Leste”, que não temos, tem proteção: a orla marítima é tombada.  A proposta enfraquece o instrumento de proteção e dará margem a que todos requeiram a mesma medida, prenúncio da extinção das construções protegidas em toda a urbe carioca.

Aprovar essa lei será decretar o início do fim da APAC Botafogo e tantas outras.

Infelizmente mais uma promessa de campanha do Executivo - “não mexer nas APACs” - foi descumprida no caso do Cinema Leblon, ‘destombado’ recentemente pelo governo municipal após um "brainstorm" no escuro.

Caso a Câmara de Vereadores aprove mais uma lei específica para um único imóvel – ato em si duvidoso – o Prefeito deveria vetá-la. E, se derrubado o veto, questioná-la judicialmente.

Neste tema, seria providencial tombar o 6º Batalhão da PM situado na Rua Barão de Mesquita, mais um bem cultural ainda não protegido que o governo estadual pretende vender para o mercado imobiliário.


Urbe CaRioca


6º Batalhão da PM, Rua Barão de Mesquita
Foto: Revista Veja

terça-feira, 19 de maio de 2015

PARQUE NELSON MANDELA, O DAS “BENESSES”, E O CARRO ADIANTE DOS BOIS




Mais uma vez o caso do estranho Parque Nelson Mandela, parte da Área de Proteção Ambiental-APA Marapendi, merece destaque neste Urbe CaRioca, um blog a cada dia mais estarrecido.

Ontem publicamos o artigo da bióloga Sonia Peixoto, uma aula sobre gestão de Unidades de Conservação e os procedimentos mínimos que devem preceder o projeto de implantação dessa natureza.

Hoje os gestores municipais praticaram mais uma ação questionável: o lançamento de licitação para colocação de infraestruturas e equipamentos justamente no Parque Natural Municipal o chamado de Nelson Mandela, criado sem estudos técnicos adequados e sem consulta pública.

O Parque não tem Conselho e nem Plano de Manejo elaborado. Ainda assim, mas irão realizar uma licitação da ordem de R$ 10 milhões para o uso público da "unidade de conservação". Ao mesmo tempo outros parques naturais municipais - Grumari, por exemplo – não dispõem de técnicos, seguranças, recursos financeiros, e têm sérios problemas fundiários.

Ao contrário da poesia e da esperança lembradas por Sonia Peixoto no artigo PLANOS DE MANEJO PARA A APA E O PARQUE NATURAL MUNICIPAL DE MARAPENDI E A SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS, diante do quadro fica um dito bem popular: “colocar o carro adiante dos bois”, certamente no escopo “Tudo é pra Olimpíada” que tem norteado as decisões sobre o uso do solo carioca já há alguns anos.

A não ser que haja relação com uma notícia divulgada em 2009 em nota no jornal O Globo e em outras mídias e, portanto, esteja planejado há tempos.

Privatizando a Praia

(O Globo – 21/09/2009 05:00:04)

Praia olímpica

Se o Rio se confirmar como sede da Olimpíada de 2016, a Praia da Reserva vai ser fechada para uso exclusivo dos atletas. Será a “praia olímpica”, onde só eles poderão entrar – ou seja, uma versão sal e sol da boate que abalou a monotonia do alojamento do Pan nas folgas.

 

Abaixo, o despacho no processo nº 14/000.073/2015, que embute uma ironia: o local chama-se “Setor Capivara”, nome do animal desalojado dali e do Parque Municipal Ecológico Marapendi, no último pelo inexplicável campo de golfe dito olímpico que tem muitas faces e suprimiu trecho importante da reserva, e de uma ‘via parque’.

Urbe CaRioca




Desenho: Urbe CaRioca




DESPACHO DO SUBSECRETÁRIO EXPEDIENTE DE 18/05/2015

Processo nº 14/000.073/2015 – Na forma do que dispõe o artigo 7º, parágrafo 2º, inciso I da Lei nº 8.666/93 APROVO o PROJETO BÁSICO, de fls. 38 a 39-verso, elaborado pela Gerência de Implantação de Projeto – GIP e “AUTORIZO” a abertura da licitação na modalidade “CONCORRÊNCIA”, tipo MENOR PREÇO, cujo objeto é ”SERVIÇO DE EXECUÇÃO DO PARQUE NATURAL MUNICIPAL DA BARRA DA TIJUCA NELSON MANDELA, SETOR CAPIVARA, SITUADO NA AVENIDA LÚCIO COSTA – BARRA DA TIJUCA - XXIVR.A. - AP. 4”, com base no Art. 23, Inciso I “c”, da Lei 8.666/93 , bem como no RGCAF.. A despesa foi estimada em R$ 10.892.313,08 (dez milhões, oitocentos e noventa e dois mil, trezentos e treze reais e oito centavos).




Mapa - Propaganda da Prefeitura


Nada compensa as perdas causadas pelo campo de golfe dito olímpico,
o que já foi exaustivamente explicado em postagens neste blog.
Ex. em 
MARAPENDI E ÁGORA – O ESPERADO, A VERSÃO OFICIAL, O ENGODO, E A VERDADE