quarta-feira, 31 de maio de 2017

PRESSÃO PARA ACABAR COM AS APACS. DE NOVO.



APAC é a sigla para Área de Proteção do Ambiente Cultural.

As APACs existem em terras cariocas desde a década de 1980, quando foram editadas as leis que aprovaram o Projeto Corredor Cultural, para parte do Centro do Rio de Janeiro, e o Projeto SAGAS. O segundo foi assim chamado por ter preservado conjuntos de construções dos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, vizinhos ao Centro da cidade e que abrangem a região portuária, a eles unida após a construção dos aterros que deram origem ao então novo porto do Rio de Janeiro, no início do século XX.

Antes mesmo desses dois exemplos, os sobrados da Rua da Carioca já haviam sido protegidos no final da década de 1970 (Decreto nº 1707/1978).

O movimento pela proteção da memória urbana através da manutenção de grupos de edificações por seu valor de conjunto vinha para complementar o instituto do Tombamento, regulamentado desde 1937 e voltado, em especial, para bens culturais com valor individual. Por outro lado, reproduziu conceitos adotados internacionalmente desde a edição da Carta de Atenas, em 1931.

Após o Corredor Cultural e o Projeto SAGAS o número de APACs cresceu significativamente. As diversas gestões municipais subsequentes promoveram a valorização do patrimônio cultural carioca edificado disseminando a proposta inicial por todo o município.


Na década de 1990 as APACs chegaram à Zona Sul, onde os bairros são objeto de renovação urbana constante e acentuada – substituição poderia ser a palavra mais adequada. Conjuntos de casas e pequenos prédios foram preservados nos bairros de Laranjeiras, Botafogo, Humaitá, Glória, Catete, Jardim Botânico, Ipanema e Leblon.

Junto com a iniciativa imediatamente começaram as pressões pelo seu cancelamento, pois, tratava-se da valorizadíssima Zona Sul, primeiro objeto de desejo do mercado imobiliário, mesmo com a crescente ocupação da região da Baixada de Jacarepaguá pelos investidores ligados à construção civil.

Neste ano de 2017 nada é diferente. Nota no Jornal Extra afirma que o prefeito pode “flexibilizar as APACs”. Tradução - Retirar a proteção que garante a volumetria e características externas de conjuntos protegidos. Leia-se: permitir a sua demolição e substituição.

A nota foi reproduzida no site da Associação dos Dirigentes do Mercado Imobiliário – ADEMI.


Crivella pode 'flexibilizar' as Apacs – Jornal Extra, Berenice Seara, 28/mai
A gestão de Marcelo Crivella (PRB) estuda uma forma de "flexibilizar" as Áreas de Proteção do Ambiente Cultural (Apacs), criadas em 1992 e implementadas pelo ex-prefeito Cesar Maia em vários bairros, especialmente na rica Zona Sul.
A ideia, que ainda está no estágio bem inicial, seria permitir que imóveis sejam construídos em desacordo com o conjunto urbano representativo dos bairros preservados (ou seja, deixar que predinhos velhos sejam demolidos, e edifícios "um pouco mais altos" sejam erguidos em seus lugares).
Claro, desde que a construtora compre Certificados do Potencial Adicional de Construção (Cepacs), que seriam emitidos especificamente para isso.
O objetivo é reforçar o tão combalido caixa do município.
Queridinhos
Os Cepacs, usados por Eduardo Paes (PMDB) para impulsionar a revitalização da Região Portuária do Rio, são os novos queridinhos da turma de Crivella.
Eles também seriam a forma de capitalizar a operação que Crivella deflagrou, na Rússia, para revitalizar o entorno da linha férrea da cidade.


É sempre assim. Muda o governo e recomeça a pressão pela extinção das APACs, só na Zona Sul, é claro. Não se menciona “flexibilizar” as leis para Gamboa, Marechal Hermes, Santa Teresa, Mangueira, Benfica, Santa Cruz, Paquetá..., ao menos por ora.

Vale recordar que o antecessor do atual prefeito é o responsável por um precedente perigosos, como foi alertado por este blog: no escurinho do cinema‘destombou’ o Cinema Leblon, para atender aos interesses do mercado imobiliário. Também houve a retirada de imóveis protegidos nos bairros do Catumbi e Campinho, porém, para permitir a construção de novas arquibancadas no Sambódromo e para a passagem do BRT, respectivamente.  Nesses casos, em tese, o interesse público prevaleceu sobre o interesse particular, hipótese em que alterações pode ocorrer, à luz das leis vigentes, embora tenha havido a discordância de historiadores e preservacionistas. Ao contrário do que aconteceu com o prédio do Cinema Leblon, e da proposta que se avizinha, segundo a nota no jornal que abre este post.

Há que ter atenção. Os quatro anos da nova gestão mal começaram.

Urbe CaRioca 

O casario antigo da Saara, protegido por se encontrar no Corredor Cultural, e prédios mais modernos, fora da área de preservação: as duas faces do Centro - Agência O Globo / Custódio Coimbra
Imagem e legenda: Jornal O Globo on line, 2014


segunda-feira, 29 de maio de 2017

A QUESTÃO AMBIENTAL CARIOCA PÓS-OLÍMPICA, de Hugo Costa


Rios da Zona Norte
Rio Maracanã onde deságua no canal da Avenida Francisco Bicalho, em frente ao batalhão da PM
Foto: Hugo Costa
Em novo artigo, o autor avalia a questão ambiental do Rio de Janeiro com foco na expectativa frustrada em relação ao chamado ‘legado olímpico’, e nas carências da Zona Norte da cidade nesse contexto, e lembra que a região foi a que maior número de votos garantiu ao novo prefeito.
Note-se os diversos links para os assuntos mencionados, que foram destaque na grande imprensa. Não deixe de conhecer a imagem no final do artigo.
Boa leitura.
Urbe CaRioca

Lixo e entulho junto aos rios Faria e Timbó. Como coibir?

A questão ambiental carioca pós-olímpica
Hugo Costa

Depois do declarado fracasso carioca com o tema despoluição da Baía da Guanabara, que dominou o debate da falta de Legado Olímpico ambiental, o assunto ‘Meio Ambiente’ na cidade do Rio de Janeiro voltou a ganhar capas de jornais.
Obras olímpicas - aqui existiu uma árvore


Não prevaleceu somente a frustração quanto às águas que banham a zona norte, Centro e parte da Zona Sul carioca – que continuaram poluídas; outro tema surgiu: a pouca disponibilidade áreas verdes e seus efeitos na população carioca, bem como as Ilhas de Calor que predominam em bairros do Rio de Janeiro.



Este seria mais um aspecto que assola a zona norte carioca, já que esta é a que tem a menor disponibilidade de áreas verdes e a maior temperatura média, esta agravada nos últimos anos pelas obras “olímpicas” e outras obras contraditórias, por exemplo, a construção de unidade de saúde em cuidar da saúde da população ocupando que reduzirá ainda mais uma das poucas áreas verdes da região onde habitam.
A sociedade se manifestou e a interpretação do novo alcaide causa estranheza: quanto à despoluição, preocupou-se com as lagoas da Barra da Tijuca, na Zona Oeste e esqueceu Baía da Guanabara e um de seus grandes poluidores o Rio Faria-Timbó
Quanto às áreas verdes a Prefeitura anunciou o interesse em tornar subterrâneos trilhos da Supervia, e criar espaços verdes entre a Estação Maracanã (Área de Planejamento 2 - engloba a Floresta da Tijuca e a Quinta da Boa Vista) e a Central do Brasil em frente ao Campo de Santana (Área de Planejamento 1 - possui o menor número de habitantes do Rio), passando pela recém-reformada com recursos públicos Estação São Cristóvão, reformas estas que não atingem nem 7% da rede ferroviária, depois de quase 20 anos de concessão. Para um futuro desconhecido, citou o Méier e Santa Cruz, na Zona Oeste, como também bairros de interesse às obras para aumentar áreas verdes nas áreas destinadas aos trens. 
Mais uma vez, não sabemos com base em que dados o Prefeito tomou aquela decisão sobre os Ramais da Central, já que as Regiões Administrativas com menores áreas verdes do Rio são justamente as do entorno do antigo Ramal Leopoldina, que abrangem os bairros de Ramos, Penha, Vigário Geral, Maré e Alemão.
Para agravar mais ainda a situação da Zona Norte, a Secretaria Municipal de Transportes tem um plano de ampliação do uso do Porto do Rio, o que demandará ainda mais caminhões no principal eixo logístico do Rio, a Avenida Brasil, que corta a região, e as áreas residenciais, agravando a poluição atmosférica justamente onde cobertura vegetal na cidade é menor. Com carretas pesadas de cargas ao porto e ônibus montados na mesma plataforma de caminhões, ao invés de veículos não poluidores com propulsão elétrica, por exemplo, a poluição só tenderá a aumentar. Mesmo neste cenário, os projetos de parques públicos e áreas comerciais - originalmente um plano que poderia diminuir os impactos ambientais, reverter o esvaziamento e atrair a reocupação e revitalização da Zona Norte – tornam-se estratégia confusa: uma enorme área nas esquinas da Av. Brasil e a Linha Vermelha, que é outro grande corredor de poluição do ar na região, que poderia ser transformada em um Parque com as tão necessárias árvores, poderá receber um conjunto habitacional!
As implicações na saúde dos habitantes deste conjunto habitacional considerando resultados de outras áreas da Zona Norte serão desastrosas!
Não conhecemos a visão do projeto geral para a cidade do atual Prefeito, mas os fatos aqui mostrados são preocupantes. Curiosamente, os subúrbios que poderão ser destruídos com estes planos, foram exatamente as regiões que lhe renderam mais votos.
Ao ignorar as carências dos subúrbios e agravar as más condições existentes, a prefeitura faz o que popularmente é chamado de “dar um tiro no próprio pé”.
É o que parece estar a caminho.

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Hugo Costa é geógrafo
Árvore plantada pelo autor do artigo na Avenida Londres esquina com Rua Aguiar Moreira junto à Praça Paul Harris.

domingo, 28 de maio de 2017

DE TRABALHADORES NÃO PAGOS A ARENAS INÚTEIS, LEGADO OLÍMPICO DO RIO DE JANEIRO TORNA-SE HERANÇA A LAMENTAR, de Scott Stinson

Um dos belíssimos momentos durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos 2016 - Imagem: internet
O título acima é tradução livre do artigo publicado no site National Post – www.nationalpost.com – no último dia 24.
Em relato detalhado o autor faz várias indagações, desde sobre o paradeiro das sementes levadas por atletas durante a lindíssima abertura dos Jogos Olímpicos – que seriam destinadas à formação de um parque no pólo de Deodoro – até o prometido tratamento de esgotos que nunca chegou, sendo substituído por uma solução barata: barreiras destinadas a afastar os dejetos dos locais de competições, uma solução temporária.
Dívidas, falta de recursos para transformar arenas em escolas conforme plenejado, Parque Olímpico e Parque de Deodoro abandonados, um campo de golfe sem manutenção e praticamente sem uso... O quadro apresentado é desolador, infelizmente.
Como já comentamos em vários posts, até aqui se pode afirmar que os principais pontos positivos apresentados como consequência dos Jogos foram a demolição do Elevado da Perimetral e a construção da chamada Orla Conde. Não se questiona que a ampliação da Linha 1 (da Estação General Osório à Estação Antero de Quental) do metrô e a construção de trecho da Linha 4 (da Gávea – sem a estação ter sido concluída – até ao Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca) tenham beneficiado parte da população carioca. Reiteramos, apenas, que não era o trecho prioritário a ser executado diante da cidade como um todo.
Ao menos temos na memória as belíssimas cerimônias de abertura e de encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
Boa leitura.
Urbe CaRioca

Foto: Beth Santos - GERJ
Scott Stinson

During the opening ceremony at last summer’s Olympics in Rio de Janeiro, the thousands of athletes who streamed into Maracana Stadium each carried a seed packet in their hand. They deposited the seeds into a large, slotted mirror, and it was explained that this would later form the basis for the Athletes’ Forest, a key element of a park that would be created in Deodoro, an area of the city that hosted a cluster of Olympic venues.
(...)
Obs: v. link para tradução na coluna à direita

quinta-feira, 25 de maio de 2017

CLUBE FLAMENGO – UM CENTRO DE CONVENÇÕES NO ENCONTRO GÁVEA-LEBLON-LAGOA


freepik


Os desejos em relação ao terreno do Clube Flamengo chamado “da Gávea”, não param.

Como explicado em várias postagens e, mais recentemente, em CLUBE FLAMENGO – POR QUE NA GÁVEA/LEBLON/LAGOA? (Urbe CaRioca, 17/05) os dirigentes do rubro-negro querem construir ali uma arena para 4.000 pessoas e um estádio para 25.000.

Mais uma novidade foi divulgada há alguns dias pela Coluna Gente Boa (OG, 22/05/2017): “Novo estádio do Flamengo pode ter centro de convenções: dinheiro para o clube”.

Segundo a nota (mais uma ‘plantada’?) a proposta é da Riotur e a presidência do clube “adorou a ideia”.


Do ponto de vista do uso de um espaço ocioso a ideia, em si, poderia até ser interessante. Porém, nesse caso, a polêmica já instalada sobre a própria construção do estádio – ainda uma hipótese - antecede qualquer análise sobre o destino da área sob as arquibancadas.

Neste LINK estão alguns dos Centros de Convenções existentes no Centro e na Zona Sul. Ainda não consta o que foi inaugurado no antigo prédio da Varig, junto ao Aeroporto Santos Dumont.

Muita bola vai rolar antes que a arena, o estádio e o centro de convenções sejam erguidos no terreno cedido ao Clube Flamengo em 1931, quando o local era um vazio cercado de favelas por todos os lados.

Urbe CaRioca

Favela Praia do Pinto, sem data (internet)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

RIO DAS PEDRAS – MAIS COMENTÁRIOS SOBRE A PROPOSTA DO PREFEITO

No último dia 21/04 publicamos o post SOBRE URBANIZAR A FAVELA RIO DAS PEDRAS, análise da anunciada ideia do Prefeito do Rio sobre a possibilidade de urbanizar o local, construindo prédios altos com verba obtida da iniciativa privada. Esses recursos viriam da venda de CEPACs ao mercado imobiliário em troca de aumentar gabaritos de altura na região da Barra da Tijuca e Jacarepaguá.

Em seguida, no dia 28, foi a vez de FAVELA RIO DAS PEDRAS – COMENTÁRIOS.

Vale reler ambos para entender o contexto da publicação de hoje, bem como relembrar que região é imprópria à ocupação urbana por suas características de localização em Área de Preservação Permanente – APP, ter cota baixa, à existência de Faixa Marginal de Proteção – FMP, e, também, por se tratar de terreno de turfa. Edifícios altos, construídos ao lado na década de 1980, sofreram recalque. Estão vazios até hoje.

O assunto voltou à grande imprensa, com novos detalhes. Segundo a notícia Rio das Pedras ganha projeto para virar bairro vertical (OG, 16/05), a Prefeitura pretende construir edifícios de 12 andares com 30 mil apartamentos, e salas comerciais. Seria uma espécie de Operação Urbana com os recursos aplicados em local distinto do que dará origem aos tais certificados.

O geógrafo Hugo Costa, entende que a proposta fracassará, expõe sete motivos, e afirma que a restrição não é política, mas técnica.

1. "Prefeitura quer erguer 30 mil apartamentos e salas comerciais em prédios com 12 pavimentos". - Comprovadamente comunidades não entendem o custo de condomínio e por isto os prédios são construídos baixos, sem necessidade de elevadores. 12 andares teria que ter elevadores, com custo alto de energia e manutenção.
2. "O prefeito Marcelo Crivella quer transformar Rio das Pedras num bairro vertical, como parte de uma nova estratégia do município para urbanizar favelas do Rio." - Desde os anos 80 prédios estão tombando devido ao solo da região. Verticalizar pode não ser a opção.
3. "Os imóveis seriam vendidos aos moradores por meio de linhas de financiamento da Caixa Econômica, pelo programa Minha Casa Minha Vida." - A taxa de inadimplência é de quase 90%. Ou seja, recursos a fundo perdido.
4. "O custo, estimado inicialmente em R$ 5,4 bilhões, seria viabilizado com recursos de uma espécie de parceria público-privada, semelhante à proposta que permitiu tirar do papel o projeto do Porto Maravilha." - O Porto Maravilha tinha objetivo privado claro, diferente do Rio das Pedras. Qual será a negociação? Gabarito no Recreio de novo?
5. "— Os programas Favela Bairro e Morar Carioca desenvolveram propostas para comunidades que não eram ruins. Mas ainda são (iniciativas) muito pequenas em relação às necessidades das pessoas que vivem nessas comunidades — disse Crivella”. - Mais uma vez a descontinuidade dos programas, o maior motivo da ineficácia neles.
6. "de acordo com pesquisa desenvolvida para o projeto, 76% da população local têm vontade de regularizar suas moradias, mesmo que tenham que pagar. Segundo o estudo, a maioria das famílias ganha entre três e cinco salários-mínimos e 61% pagam aluguel." - A pesquisa considera apenas o custo imediato, dificilmente cita taxas de condomínio, luz, TV, e serviços extras.
7.  "Isso porque o plano exigirá mudanças nas regras para construções no entorno de Rio das Pedras. Atualmente, por exemplo, não são permitidos prédios com mais de três pavimentos, em vias como as avenidas Engenheiro Souza Filho e Isabel Domingues.". - Sobre os prédios altos invadidos na década de 1990: Na época da invasão as crianças brincavam de bater portas! Os barracos originais da favela não tinham portas (no máximo, apenas cortinas). Para as crianças as portas eram algo fantástico!!!

Quanto ao item 7, a invasão que ocorreu nos edifícios altos da antiga Delfin Imobiliária consta no noticiário de março/1991 e pode ser conhecido AQUI.
Ainda quanto à proposta da prefeitura para a favela Rio das Pedras, extraímos um parágrafo do artigo do arquiteto Sérgio Magalhães publicado no jornal O Globo no último dia 20/05, que traz o título otimista ‘Basta de violência: o Rio épossível’. Segundo o autor, “o anunciado programa municipal de construir prédios altos na favela Rio das Pedras soa algo superado”.

Tivesse o Alemão sido urbanizado, ao invés de construir teleférico midiático; fosse o Morar Carioca o legado social da Rio 2016, como prometido; tivesse o governo permanecido após as obras no Favela-Bairro — aquela metade da cidade estaria coberta pela Constituição e a violência urbana reduzida.
É assim que o anunciado programa municipal de construir prédios altos na favela Rio das Pedras soa algo superado. Não pela semelhança com o Projeto Cingapura, dos governos Maluf-Pitta, em São Paulo, aqui com o dobro de andares. (O Cingapura pretendia “verticalizar” as favelas.) Nem porque, lá, tenha sido mera propaganda para fartos negócios, em modelo similar ao visto na Lava-Jato. Mas porque nada diz sobre questões básicas, como: se a Rio das Pedras, no Censo, tinha 18.692 domicílios, por que os anunciados 30.000 apartamentos? Se tinha 54.776 habitantes, por que prédios para 88.000 pessoas? É para levar população para lá? Serão demolidas as moradias atuais? Para vencer a violência, os R$ 5,4 bilhões estimados serviriam melhor se distribuídos na cidade ou concentrados? Enfim, são questões em que o planejamento é ótimo instrumento.

Fica mais um alerta deste blog ao prefeito do Rio, para que busque outra solução. Que deixe o factóide e busque o factível.

Porque há que haver otimismo.

Urbe CaRioca

segunda-feira, 22 de maio de 2017

MAIS SOBRE A MEDIDA PROVISÓRIA DA REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA URBANA – MP 759/2016


Ocupação irregular - margem da Linha Amarela
Foto: Canagé Vilhena, 15/12/2006

A MP 759/2016 - atualmente denominada Projeto de Lei de Conversão 12/2017 – foi objeto do artigo SOBRE A MEDIDA PROVISÓRIA - MPV DO “DIREITO DE LAJE” OU DE “SOBRELEVAÇÃO”, de Canagé Vilhena, neste blog, em 28/12/2016. Trata-se da proposta que “Dispõe sobre a regularização fundiária rural e urbana, sobre a liquidação de créditos concedidos aos assentados da reforma agrária e sobre a regularização fundiária no âmbito da Amazônia Legal, institui mecanismos para aprimorar a eficiência dos procedimentos de alienação de imóveis da União, e dá outras providências”.

No artigo citado Canagé Vilhena destacou que “a imprensa destacou o reconhecimento do direito de um possuidor de edificação em favela negociar (via transação de compra e venda) a ocupação do seu espaço aéreo para construção sobre sua cobertura de concreto, apelidando, por isso, a MPV 759/206 de Medida Provisória do Direito de laje”.

O site do Conselho de Arquitetura e Urbanismo – CAU informa que a proposta, considerada polêmica por várias instituições ligadas ao Urbanismo, está na pauta da sessão plenária da Câmara dos Deputados do próximo dia 24 (o projeto deixou de ser votado no último dia 17 devido aos acontecimentos políticos que fizeram a sessão ser encerrada, e o país, mais uma vez, parar).


Abaixo, trecho do comentário do CAU/BR cuja íntegra pode ser lida AQUI.


 “O documento tem sido objeto de intensa crítica, inclusive das entidades de Arquitetura e Urbanismo por desmontar de uma maneira açodada um arcabouço urbanístico e jurídico fruto de amplo processo de discussão e consolidação nos últimos 20 anos, invadir competências municipais e conter itens inconstitucionais.

Exigências urbanísticas são relegadas em favor de aspectos de mercado. Permite-se regularização de áreas não urbanizadas, legalização de condomínios construídos sobre terras griladas, fechamento de ruas e até a dispensa do Habite-se em certos casos.
“A regularização fundiária não é disciplina de direito imobiliário, mas de direito urbanístico. Seu objetivo não é produzir propriedade, mas gerar cidades”, afirma Haroldo Pinheiro, presidente do CAU/BR, a propósito da justificativa dada à MP 759/2016. Segundo o governo, a regularização fundiária urbana contribuirá para “o aumento do patrimônio imobiliário do País”, por representar a inserção de capital na economia, à medida que agrega valor aos imóveis regularizados, permite ao Poder Público cobrar impostos (IPTU, ITR E ITBI) e facilita aos proprietários a obtenção de créditos, dando seus imóveis como garantia. Ou seja, a inclusão apressada das áreas regularizadas no “mercado imobiliário” mostra que o fator tributário, não o social, foi determinante para deixar a urbanização em segundo plano.  “Precisamos gerar cidades dignas, não propriedades precárias para arrecadar impostos”, diz o presidente do CAU/BR”.


Algumas vezes perguntamos: Lei urbanística para quê, se a irregularidade impera? Para ser desobedecida, ao que parece, tendo-se sempre a perspectiva de que, um dia, tudo será legalizado, seja através da eterna ‘mais-valia’ ou de simples anistias.

Aguardemos.

Urbe CaRioca

sábado, 20 de maio de 2017

O MÊS NO URBE CARIOCA – FEVEREIRO 2017

Foto: Alexandre Albuquerque, fev. 2017

 

O mês de FEVEREIRO 2017, no blog, teve início com um belo artigo de Paulo Nascimento sobre a Igreja de Santa Luzia, no Centro do Rio, aquela aonde o mar chegava aos pés.

Encerramos a série de pedidos ao prefeito da Cidade do Rio de Janeiro. Foram dez. Daqui para frente qualquer dia será dia de pedir, sugerir, questionar e elogiar!
O futebol esteve nestas páginas virtuais, onde a bola não rola. A assunto foi o desejo de clubes que querem construir estádios e, para tanto, querem terrenos públicos – doados, diga-se – ou mudanças nas leis urbanísticas que vedam o uso.

Sobre as grades na Orla Conde que causaram polêmica, surgiu a promessa de serem substituídas por um guarda-corpo adequado à paisagem.

PEUs e IPTU, mais dois temas controversos, passaram por aqui em fevereiro. Canagé Vilhena opinou.

Reclamilda estava “azeda” no Carnaval. Ficou pensando sobre o País e o Rio, estranhas indenizações e fatiamentos. Nada contra que os outros pulassem e sassaricassem.

Boa leitura.


Urbe CaRioca

FEVEREIRO 2017














quarta-feira, 17 de maio de 2017

CLUBE FLAMENGO – POR QUE NA GÁVEA/LEBLON/LAGOA?


E a reação de moradores da região.


Na última sexta-feira, 12/05, publicamos CLUBE FLAMENGO – AGORA É UM ESTÁDIO. ACÚSTICO., quando foi assinado protocolo de intenções entre o Clube e a Prefeitura com vistas à construção de um estádio de futebol, no mesmo terreno onde hoje ficam o campo, uma arquibancada de concreto, e a sede social do clube, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro.

 O assunto frequentava estas páginas virtuais desde março/2015. O rubro-negro anunciara a intenção de construir uma arena multiuso com capacidade para 4.000 pessoas, seguida pela hipótese de um estádio de médio porte (v. lista no final do artigo), desejo antigo daquele e de vários outros clubes de futebol (v. FLAMENGO, FLUMINENSE, BOTAFOGO... TODO CLUBE QUER ESTÁDIO!).


A questão levantada em abril/2016 em CLUBE FLAMENGO – AFINAL, ARENA OU ESTÁDIO? fora praticamente esclarecida quando reportagem na grande imprensa divulgou “Flamengo intensifica estudos sobre locais para construção de estádio - Projetos que vão da Gávea ao Parque Olímpico. O clube enfrenta resistências (OG, 31/03/2017).

Segundo a notícia, além de erguer um estádio próprio depender “de boa vontade política”, havia “cinco opções na mesa da diretoria” para análise enquanto o clube usa a Arena da Ilha (alugada): Maracanã, Niterói, Gávea, Parque Olímpico, e Barra de Guaratiba. E mais: “A direção dá prioridade hoje ao projeto da Gávea, sede do Flamengo, mas enfrenta resistência da associação de moradores do bairro, apesar das novas estações de metrô”.

Não repercutimos a notícia aqui, aguardando novas definições. Quanto à Gávea, vale lembrar que a arena havia sido aprovada pelo prefeito anterior no final de sua gestão.
Voltando ao referido protocolo de intenções para a construção de um estádio, já explicamos que o terreno “da Gávea”, fica no bairro do Leblon, confluência com os bairros da Lagoa e Gávea (o campo existente é provavelmente conhecido como ‘campo da Gávea’ porque o local ficava na Freguesia da Gávea, conforme antiga divisão administrativa da cidade).

Sobre ser Arena ou Estádio, um atento leitor deste Urbe CaRioca nos informou que o Flamengo pretende construir os dois equipamentos - um Estádio Acústico, de futebol, para 25.000 pessoas e a Arena Multiuso com capacidade para 3.800 espectadores, ambos no terreno “da Gávea”: o primeiro onde ficaria o campo atual, e o segundo no trecho com frente para a Av. Borges de Madeiros, voltado para a Lagoa Rodrigo de Freitas.

A notícia gerou muitos comentários nas redes sociais, a grande maioria dos moradores da região manifestou-se contrariamente ao projeto, como já havia acontecido quando anunciada a construção da arena. Torcedores do clube manifestaram-se favoravelmente à pretensão, conforme esperado.

Cabe voltar à pergunta do título: Por que na Gávea/Leblon/Lagoa? Justamente onde existe um nó de trânsito?

A cidade dispõe de inúmeros equipamentos esportivos, concentrados na Zona Sul e na Zona Oeste, inclusive os do hoje abandonado Parque Olímpico, salvo o Maracanã e o Engenhão, este construído na Zona Norte para os Jogos Pan-americanos 2007, trazendo alguma descentralização.



A antiga Freguesia da Gávea era área pouco densa, distante do Centro da Cidade, ocupada por fábricas e muitas favelas quando o clube recebeu a cessão da área, em 1931. A cidade mudou, e, no século XX cresceu para a Zona Sul, em um segundo movimento após o desenvolvimento do eixo Centro-Zona Norte, como a história do Rio ensina.

Os dirigentes do clube entendem que erguer um estádio próprio depende de boa vontade política. Entendemos que equipamentos urbanos de tal porte e influência extrapolam a vizinhança e até a cidade. Antes da “boa vontade”, os gestores públicos precisam avaliar as consequências da decisão do ponto de vista urbanístico, e indicar o lugar que melhor atenda à urbe e à população, aproveitando a oportunidade para qualificar regiões desprovidas, e não saturando ainda mais aquelas bem servidas. Ou seja, praticando a boa Política Urbana.

Repetindo outro atento leitor: “Na Zona Norte será bem-vindo!”.


NOTA: Pedimos ao Prefeito que analise o assunto mais uma vez, e sugerimos a leitura do artigo abaixo, cuja autoria é da professora e jurista Sonia Rabello.





Urbe CaRioca