sexta-feira, 7 de julho de 2017

O VELO-CITY 2018 VEM AÍ, de Hugo Costa

O evento que será realizado no próximo ano no Rio de Janeiro – o Velo-City Global 2018 – é pano de fundo para o artigo do geógrafo Hugo Costa, que mostra mais uma face dos contrastes entre regiões e bairros cariocas, desta vez com análise sobre a malha cicloviária da cidade.  A continuidade dos projetos e obras para a instalação de ciclovias é essencial, assim como sua distribuição equilibrada. Boa leitura.

Urbe CaRioca



O VELO-CITY 2018 VEM AÍ

Hugo Costa*


Um dos eventos mais famosos e importantes do mundo para mobilidade ativa acontecerá no Rio de Janeiro em 2018. Depois da bem sucedida recepção este ano em Amsterdam (Holanda) - que é conhecida pela sua grande malha cicloviária - o evento fará parte da política municipal carioca para a atração de eventos mundiais e ampliação do calendário turístico da cidade.

Nosso prefeito ‘caprichou’ na apresentação institucional para convidar os ciclistas presentes na edição de 2017, com lindas cenas de ciclovias à beira mar (incluindo trechos da ciclovia que caiu e matou duas pessoas), em parques, ou em ruas do Centro do Rio durante o final de semana. O que se mostrou ganhou elogios e pedidos em rede sociais até no próprio Rio: os cariocas querem morar naquele Rio de Janeiro exibido no vídeo, e não no que existe na vida real.

O contraste entre o Rio de Janeiro do vídeo e os lugares onde cariocas realmente pedalam explica-se pela política que predomina há décadas na cidade, onde no imaginário dos gestores públicos, a cidade tem apenas esta representação cartográfica para gerenciar...


Mapa turístico da Cidade do Rio de Janeiro (Internet)



... que apresenta uma forma alternativa neste outro mapa...



Distribuição de Renda da Cidade do Rio de Janeiro - Prefeitura do Rio


... e assim condiz, também, com os Mapas Cicloviários da cidade representados na propaganda oficial para o Velo-City, que inclui apenas as ciclovias configuradas no mapa turístico na elaboração do Rio de Janeiro, excluindo, portanto, a malha cicloviária da cidade real:


Mapa de Ciclovias do Rio de Janeiro - IPP - Prefeitura do Rio



Curiosamente, as regiões mais densamente ocupadas são “partidas” quando a política trata de ciclovias, conforme abaixo:



Densidade Demográfica do RIo de Janeiro 2000 - IPP - Prefeitura do Rio



A rede de ciclovias necessária no Rio de Janeiro vai contra o que é senso comum a muitos cariocas: bicicleta é meio de transporte e não apenas equipamento usado para o lazer. Imaginar que o ciclista é apenas aquele vestido com roupas e capacetes aerodinâmicos montado em uma bicicleta de milhares de reais, que separa seu final de semana para fazer exercícios, é um engano. O principal perfil de ciclista das cidades brasileiras se enquadra na faixa salarial de até 3 salários mínimos, e usa a bicicleta como opção ao tarifário de transporte público, característica econômica abundante na região da cidade desguarnecida de malha cicloviária, que compreende a Zona Norte e sua conexão com a Zona Oeste, distantes do litoral.


Perfil econômico dos ciclistas brasileiros: 67,2% dos ciclistas entre sem renda e 3 salários mínimos - ONG Transporte Ativo / Nexo

Fonte Censo 2000 e 2010 IBGE mostrando o crescimento das familias em números absolutos na Area de Planejamento 3 e 5 na faixa de 1 a 3 salários minimos.


Alguns entusiastas do Rio ‘turístico’ afirmariam que o importante é continuar o tratamento dado seletivamente à parte da cidade que talvez ainda possa ser chamada "Maravilhosa": mantém-se o incentivo ao turismo na bolha onde há ciclovias, e esconde-se o resto da cidade, fórmula reproduzida há décadas. Isto funciona adequadamente a quem chega ao Aeroporto internacional do Galeão e dirige-se de táxi ou ônibus de turismo pela Linha Vermelha em direção ao Túnel Rebouças, em direção a Zona Sul, sem conhecer a Zona Norte, onde fica o Aeroporto.

Mas como se faria esse deslocamento com um grupo de entusiastas de bicicletas? Como explicar a um grupo mundial de adeptos da mobilidade ativa que a única forma de sair do aeroporto da cidade que sediará um evento como o Velo-City para o local do encontro ou dos hotéis é através de carros ou de ônibus especiais?

Estamos em uma megalópole e o Aeroporto Internacional é ligado aos bairros através de vias expressas, poderia ser uma explicação. É certo, porém, que os motoristas das ruas da Zona Norte e da zona "noroeste" não são receptivos à partilha do espaço com ciclistas como mostram as estatísticas e fatos da cidade.

Acreditamos que um com custo menor e garantindo segurança maior que a oferecida pela fatídica ciclovia Tim Maia, é possível prover uma grande parcela das zonas Norte e Oeste que margeia os grandes eixos rodoviários da cidade com ciclovias, gerando assim um cenário mais condizente com o tipo de evento mundial que virá para a cidade em 2018. E, sobretudo, beneficiando a população carioca.


*Hugo Costa é Geógrafo

Um comentário:

  1. Murilo Medeiros5:56 PM

    Duas observações: o tal Mapa Turístico é assustador.. Não sei quem fez mas deveria ser preso... E as Ciclovias / Ciclofaixas parecem minhocas se contorcendo no Mapa do Município... Assustador...

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